Complexo Ferroviário do Barreiro no Processo de Industrialização de Portugal

O Caminho-de-ferro vem diversificar e reforçar as boas acessibilidades fluviais, levando mais longe a nossa ligação a Sul do Tejo, conferindo ao Concelho uma maior centralidade no território que, hoje, designamos por Área Metropolitana de Lisboa.
Está, desta forma, aberto o caminho ao processo de industrialização e simultaneamente a um desenvolvimento vertiginoso do ponto de vista urbanístico e demográfico – as quintas dão lugar às fábricas e a bairros.
Três momentos marcam este processo: abertura da Linha do Sul e Sueste e Oficinas do Caminho-de-ferro, instalação da Indústria Corticeira e da Companhia União Fabril.
Durante muitos anos acorrem à Vila, expressivamente denominada de “Brasil em miniatura”, pelo jornal Eco do Barreiro, de 4 de Outubro de 1930, trabalhadores, famílias inteiras vindos de todo o País em busca do pão e do sonho de uma vida melhor. Gente, na sua maioria, de língua igual e falas várias a que a vila se acostuma e aglutina, compondo um perfil de diversidades cultural e solidariedade quotidiana expressa na forte componente associativa.
Desta rede destacamos as associações de classe dos ferroviários, uma notável rede de associações humanitárias, nas quais os ferroviários são verdadeiros percursores: os Bombeiros Voluntários do Sul e Sueste (1894), o Armazém de Consumo da Caixa de Socorros Mútuos do Caminho-de-ferro (1896), a Cooperativa de Consumo (1913), a Casa do Ferroviário (1922), o Instituto dos Ferroviários (1927).
Há 150 anos o comboio representou a modernidade, revolucionou os transportes e as mentalidades, criou uma classe de ferroviários, hierarquizada, distribuída por múltiplas profissões novas, com um saber-fazer novo transmitido de geração em geração, muitas vezes dentro do mesmo grupo familiar. Uma classe consciente do seu progresso pessoal e social, consciente dos seus direitos e deveres e do contributo dado ao desenvolvimento da terra, que já era sua.
O Caminho-de-ferro foi o motor do Barreiro Contemporâneo durante mais de 100 anos e foi uma das bases do seu desenvolvimento. Sem o Caminho-de-ferro o Barreiro não teria sido um dos mais importantes pólos da industrialização da Península Ibérica.
O Complexo Industrial Ferroviário foi, entre 1950 e 2000, uma referência a nível Europeu, sobretudo na área da tracção diesel. A sua Escola de Aprendizes formou, durante décadas, uma mão-de-obra altamente capacitada e desenvolveu e aperfeiçoou uma cultura tecnológica reconhecida nacional e internacionalmente.
Do Barreiro partiram os primeiros comboios que chegaram ao Alentejo profundo e ao Algarve. O Barreiro encabeçava todas as linhas e ramais a Sul do Tejo e foi, desde cedo, o principal depósito de todas as locomotivas que, circulavam nestas linhas.
No início dos anos 60 chega o diesel, todo este material, a nível nacional, foi reparado na oficinas do Complexo Ferroviário do Barreiro. Ainda hoje, a nossa terra é considerada, no meio ferroviário, como a “Catedral do Diesel”.
O Barreiro, com a classificação nacional deste Complexo Ferroviário, dispõe de um valor patrimonial material e imaterial que responde às necessidades de afirmação cultural e social do Concelho, bem como, se bem equacionado, a uma estratégia de desenvolvimento efectivo.

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